margaridas

margaridas

SER VERTICAL

Ser antes de tudo

o que se quer.

Não parecer o que se não é.

Ser afinal cada qual

quem é.

Ser sempre o que se deve ser.

Vertical.

Inteiro.

De pé.

Maria Emília Costa Moreira

Seguidores

domingo, 10 de março de 2013

VIAGEM SEM TEMPO





Hoje vou ter a estranha ousadia
de lançar-me desta minha Torre de Solidão
com coragem

Simplesmente com os braços abertos
o dorso curvado em arco e partir
em viagem

São tantos os segredos que a lua e o sol
me ensinaram nessa longa ida
foi com eles que aprendi
a inventar um corpo novo
e a sorrir para a vida

A  pintar de rubro todos os medronhos
de azul as noites baças de dor
de esperança a doença sem cor
e despertar num misto de lágrimas e sonhos

in  À Rédea Solta  de Maria Emília Costa Moreira

quinta-feira, 7 de março de 2013

AO JEITO DE EXORTAÇÃO


A minha homenagem a tanta mulher humilde do meu país, cuja vida foi um drama  terrível desde o nascimento até à morte...



                      
                 Ó mulher da minha terra
estás gasta e desfeita,
sedenta de ternura
pois a vida é dura
e os olhos e os ouvidos dos outros
se fecham à tua dor.
Estas farta de um trabalho
sempre igual e escravizante,
sem recompensa, sem elogio
e sentes na carne a fome, a sede, o frio
e estás só,
em casa, no campo, no rio.

Ó mulher da minha terra
de rosto duro empedernido,
de braços fortes, pernas rijas,
de ventre disforme e carne amolecida,
pois que vezes sem conta “andas de barriga”.
E o homem que dizes ser teu
e que nada tem de seu para te dar,
gasta no jogo, com” mulheres” e na taberna,
os magros tostões
com que a casa se governa.

Ó mulher da minha terra
estás só, esfarrapada e mísera,
sem dinheiro e sem carinho
e corroída pela tísica
e a sífilis e tudo o mais que existe
e que o “teu homem” te deu de presente.
És rica em filhos que deitas ao mundo
um em cada ano,
e sentes que a tua vida
foi feita de rude engano.
Mas persistes sem coragem para desfalecer,
até que um dia a morte
se lembre de te vir ver.

Ó mulher da minha terra
és resistente, pois enfrentas
o martírio da pobreza que é constante
e não tens coragem para dizer “Não”
aos que te exploram e oprimem.
És forte e trabalhas como um homem,
mas não te alimentas nem ganhas como tal.
Aí, então, deixas de ser sua igual,
passas a ser a fraca, a ser mulher.

Mulher criança
Menina mulher
Mulher mulher
Mulher e mãe

És tudo, encerras em ti
o que de mais belo a vida tem.

Ó mulher da minha terra
porque queres ignorar o teu valor,
porque consentes que te atirem à lama,
porque cruzas os braços,
porque calas a boca,
porque tapas os ouvidos,
porque cerras os dentes,
porque apertas os punhos
e aguentas?

Ó mulher da minha terra
acaso ignoras que é necessário lutar?
Que deves fazer a tua guerra?
Já basta de implorar.
Tens de conhecer os teus direitos
de mulher,
que a vida é preciso ser vivida
haja o que houver,
que a felicidade se constrói
lutando pela própria liberdade
e que só nela é possível
atingir a igualdade.

               Ó mulher da minha terra
deixa de ser a escrava,
a serva, a criada,
mulher para todo o serviço,
de permanecer na sombra, calada.
Anda, não fiques parada,
aprende a dizer “Não”
pois que a doutrina da mansidão,
da mulher objecto,
da mulher submissa,
já foi de há muito ultrapassada.
Tens de arrancar os véus da tua mente,
limpar as teias de aranha
e as patranhas religioso-supersticiosas
que te vêm impingindo
desde há séculos através da história.
Lança-as para trás,
deita-as fora.

Ó mulher da minha terra
acorda!
Sai desse sono incómodo e milenar,
desperta de uma hibernação patética,
dispõe-te a lutar.

Ó mulher da minha terra
luta por e para ti.
Ó mulher da minha terra
terei orgulho de ti!


Histórias verdadeiras que me foram relatadas pela minha mãe, outras que eu  própria conheci: jornaleiras( trabalhadoras rurais),peixeiras, leiteiras e lavadeiras, profissões típicas da aldeia onde nasci .
O poema foi escrito tinha eu 22 anos e guardei-o na gaveta. Por volta dos 35,dei-lhe uma revisão geral e voltou a hibernar...até hoje!

sexta-feira, 1 de março de 2013

RASGOS DE LOUCURA



Tempo de mais escondi
os meus versos na gaveta.
Por vergonha,
triste e cândida.

Guardei-os como quem guarda
um tesouro,
em solidão avara.

Céus e terra conjugados
abateram-se sobre mim
em triturações violentas.

Duas mortes anunciadas…lentas…
Embaciados os olhos.
Enegrecido o coração.

Depois a minha vez.
Visitou-me um mal dilacerante
e quase sucumbi.
Afogada no sal das lágrimas
o tempo foi passando…
Por fim amanheci.

Fiz terapia na cor e na poesia
com rasgos de loucura.
Aliviada a dor e a sede de ternura,
recusei esconder-me por mais tempo
como alguém que cava em vida
a própria sepultura.

 Maria Emília Costa Moreira

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

EXPERIÊNCIAS


 (cera e ecoline s/ papel 33x23) rep.



O tempo é um sopro
quando sobre o papel me debruço
na mistura das tintas.

Deleito-me com o derramar da cera
e mergulho na rejeição das aguarelas.

Sobre a textura branca e rugosa
inicia-se uma fusão, uma dança de cores,
um nascer de formas complexamente simples,
que no papel se fixam, caprichosas.

Súbito, surgem redondos de espanto:
Três sóis…três luas…três rosas…



(cera e ecoline s/ papel 33x23)

Quando realizei esta série de trabalhos de pequeno formato,normalmente trabalhava 3 ou 4 em simultâneo.
Utilizei cera de vela que derreti e lancei sobre o papel de aguarela de forma aleatória. Depois com o papel humedecido fui aplicando as ecolines. Gostei do produto final!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

SINAIS








As estrelas uma a uma,
cobriram-se com o véu da aurora
e sumiram-se no espaço. 

A lua azul deixou que o sol amanhecesse no seu regaço.
E as nuvens vadiamente passeavam-se de espanto e de cansaço.

No planeta, as pedras abriram os olhos,
as árvores, as bocas famintas de luz.
E por todo o lado as flores desceram,
fizeram uma roda e dançaram,
deixando os caules nus.

Pelas escadas do céu, degrau a degrau,
estavam aves penduradas
soltando cânticos de magia.

E no coração dos mares,
peixes vestidos de amarelo e negro,
de vermelho-sangue e azul-turquesa,
devoravam poesia.

E os deuses imperfeitos cantavam em silêncio,
bendizendo este pântano de sonhos
profundos, subtis e às vezes perfumados.

E em sinal de amor,
todos os bichos da terra deram as mãos de cristal,
fizeram uma corrente de aço e destruíram a guerra.




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ESTUDO


(lápis  s/ cartolina 65x50) rep

AMBIÇÃO

Tanto queria crescer
na arte
de cruzar as cores
com o pincel
de as enredar nas telas
ou no papel…

Tanto queria saber
usar o carvão a preceito
de debuxar com jeito…

Tanto queria ter
tempo de sobra
para ver caminhar
passo a passo
a minha obra…

Rio da Fonte, 9 Julho 2001
Maria Emília Costa Moreira

 Fiz este estudo a partir de um cartaz de Vieira Portuense.Quem foi este pintor?
Vieira Portuense, nome artístico de Francisco Vieira, nasceu no Porto a 13 de Maio de 1765 e faleceu no Funchal, Ilha da Madeira a 12 de Maio de 1805, com 39 anos apenas, vitima de tuberculose. 
Foi um grande pintor da sua geração. Iniciou-se no desenho e pintura na cidade natal e logo continuou os seus estudos em Lisboa e depois em Roma. Viajou e contactou outros artistas e participou em exposições, não só em Itália como na Alemanha, Áustria e Inglaterra.
 Em Portugal está representado no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa e no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.
                                                         
                                                        

                                                         

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

LÍRIOS ROXOS




(acrílico aguado  sobre papel   40x30) rep.


Gosto dos lírios roxos
da transparência do seu sacrário
da trilogia sinuosa abrindo-se
como lágrimas caindo
e do abraço dos três braços

Gosto dos lírios roxos
espalhados pelas sebes nos quintais
e do seu olhar misterioso e macio
orvalhado de estranhos rituais

Gosto dos lírios roxos
como veias transparentes de fino recorte
gosto da mística verticalidade do seu porte




Rio da Fonte, 29-8-1998